EDIÇÃO # 43
Maio 2005
Marina Person
Monja Coen
Jéssica Desilva
Paula prandini
Mariana Dupas
 
     
 


58, trabalhou como jornalista no Jornal da Tarde na década de 60, e, aos 36, virou monja zen-budista. Morou no Japão de 83 a 95. Há três anos, fundou a Comunidade Zen Budista, em São Paulo. FALE COM ELA: monjacoen@trip.com.br


Qual a peça do guarda-roupa de que você mais gosta?
O incenso japonês que uso para meditar. Além de me elevar espiritualmente, ele dura exatamente o tempo da meditação.


Vá lá:
Comunidade Zen Budista, (11) 3062 8964, r. Arruda Alvim 127 B, Pinheiros, São Paulo, (R$ 2)


1 MEDITAÇÃO
Zazen é o ato de sentar para meditar. Na minha opinião, o principal benefício da meditação é o fato de ela nos tornar mais plenos de energia vital. Mas também é um meio de diminuir o estresse e a ansiedade, além de regular batimentos cardíacos e pressão arterial. Bastam alguns minutos pela manhã e um tempinho durante o dia, quando sentir vontade de encontrar o sagrado. Procure um lugar silencioso, nem muito quente, nem muito frio, e que não seja demasiadamente claro ou escuro. Escolha uma parede lisa e sente-se, de costas para ela, a um metro de distância. Permaneça sob uma destas posições – a popular perna cruzada, lótus (pé esquerdo sobre a coxa direita e pé direito sobre a coxa esquerda), meio lótus (um dos pés sobre a coxa contrária e o outro dobrado no chão, embaixo da outra perna) ou sentada sobre as pernas e os pés. Com a coluna ereta, junte os dedos da mão esquerda com os dedos da mão direita, voltados para cima. Os polegares se tocam bem de leve, como se houvesse uma folha de papel entre eles, formando uma figura oval. Solte todo o ar pela boca. Coloque a ponta da língua no céu da boca, atrás dos dentes frontais. Deixe os olhos entreabertos, suavemente pousados. Procure relaxar qualquer tensão. Ouça todos os sons. Perceba odores, aromas e observe sua mente. Pensando? Não pensando? Esse é o princípio do Zazen. É o caminho da libertação das amarras que criamos e nas quais nos prendemos, que geram sofrimento.

2 ANTENAS LIGADAS
Na correria do dia-a-dia, às vezes nos esquecemos de prestar atenção em várias coisas. O costume de ficar alerta – na medida certa – é ótimo para melhorar nossa relação com a vida. Por exemplo, ao levantar de manhã, perceba com que pé saiu da cama, como toca a maçaneta da porta (ela é quente ou fria?). Que mão você usa para pegar o sabonete? Qual sua fragrância? Qual a temperatura da água do banho? Cultive a plena atenção no que está fazendo. Lave bem o rosto, cuidadosamente. Escove os dentes, um por um, com ternura. Vista a roupa com alegria, para se cobrir, para ficar bem, para alegrar quem a vir. Sente-se por alguns momentos, respirando naturalmente. E, quando bater aquele momento estranho durante o dia, pare e respire de novo. Sinta os pés no chão, a coluna reta, a brisa no rosto. Aos poucos, incorpore essa percepção aguçada e tente se livrar dos vícios da pressa.

“Quando abrimos as mãos, o universo inteiro cabe nelas. Precisamos ser capazes de abrir mão do que temos para receber mais”

3 BELEZA ZEN
Minha superiora no Japão, Shundo Aoyama Rôshi, 75, há dois anos lançou o livro de contos Para uma Pessoa Bonita. A mestra zen-budista reuniu diversos ensaios a partir de sua vivência no Japão, onde se formou em estudos budistas na Universidade de Komazawa. O livro mostra como podemos nos tornar realmente belas por meio do olhar feliz, do coração aberto. Não tem nada a ver com a beleza efêmera, que o tempo dilui, mas sim com postura de vida.

Vá lá: Para uma Pessoa Bonita – Contos de uma Mestra Zen, ed. Palas Athenas, 256 págs.,
R$ 32, www.siciliano.com.br



RITUAL DIÁRIO
Nos mosteiros zen, antes de entrar no banheiro, fazemos uma oferta de incenso e uma reverência. Então, nos sentamos adequadamente no vaso e colocamos as mãos em shashu, ou seja, o polegar da mão esquerda fica dentro da palma da mão, abraçado pelos outros dedos. A mão direita fica por cima do punho cerrado da mão esquerda. Ambas permanecem juntas, quatro dedos acima do umbigo. A postura ereta e a respiração correta ajudam o fluxo intestinal. Repetimos algumas vezes o seguinte mantra: U SU SA MA MYÔ Õ. Assim, estamos prontos para evacuar, uma atividade tão sagrada como qualquer outra.