Todo dia, há 30 anos, ele atende mulheres decididas a interromper a gravidez. Para ele, esse procedimento é tão ético quanto os partos que realiza diariamente
por Renata Leão

Apesar de ser um dos ginecologistas obstetras mais requisitados de São Paulo, este médico não pode ter seu nome revelado nesta reportagem. Caso contrário, vai se complicar com a Justiça. Há mais de três décadas, o doutor M., como vamos chamá-lo aqui, faz abortos, entre consultas comuns, num consultório confortável.

Doutor M. conta que a maioria das pacientes chega angustiada, desejando uma solução rápida. “Nunca tive crise de consciência porque sei que estou resolvendo o problema da pessoa”, conta. “No que toca a ética, não vejo diferença entre fazer um aborto ou um parto.”

Ele, que realiza cinco abortos por dia há mais de três décadas, fala que já aprendeu muito com suas pacientes. “Depois de 30 anos de carreira olhando nos olhos de todas que se sentaram à minha frente nesta mesa, cheguei à conclusão de que, quando a mulher está decidida a tirar um filho, ela vai tirar e pronto.” Ainda que a maioria chegue decidida, doutor M. conta que já houve várias ocasiões em que, percebendo a hesitação da paciente, aconselhou que voltasse para casa e pensasse melhor. “Toda mulher que vai interromper uma gravidez está numa situação de conflito. Trata-se de um questionamento de fórum muito pessoal que nada tem a ver com cultura, credo ou formação religiosa. As mulheres que realmente querem abortar estão perturbadas, mas nunca em dúvida. Quando não é assim, mando voltar pra casa.”

 
A primeira experiência
Doutor M. cresceu num casarão do bairro da Vila Mariana, área nobre da zona sul paulistana. Estudou em bons colégios, fez faculdade de direito na USP, se formou advogado aos 22 e se casou um ano depois. Aos 24, foi pai da única filha que tem. Dois anos depois, perdeu a esposa num acidente de carro. Desnorteado, resolveu largar a vida de advogado e prestar vestibular para medicina. No fim do curso, decidiu se especializar em ginecologia e obstetrícia.

Seu primeiro contato com um aborto aconteceu bem antes disso. Foi aos 18 anos, quando a namorada, um ano mais velha, engravidou. Ele ainda morava com os pais, havia acabado de ser aprovado na faculdade de direito, e achou que não era a hora de ter um filho. A moça, de família tradicional, não queria que os pais soubessem de nada. “Fomos a um lugar horroroso, filme de terror mesmo. Era na periferia de São Paulo, e o cara fazia tudo numa cozinha, sem luva, sem higiene, sem nada”, lembra. “Amarraram um pano na boca da menina para ela não gritar. Isso me chocou muito e eu saí pensando: ‘Por que tem de ser assim?'. Foi quando entendi que, embora fosse uma contravenção, o aborto era uma questão de saúde pública.”

Depois de formado, doutor M. montou um consultório, formou clientela e começou a exercer a profissão sem pensar em realizar abortos. Até que uma amiga da faculdade foi violentada, engravidou e pediu sua ajuda. “Nem pensei duas vezes, claro que fiz o aborto”, diz. Em seguida, começaram a surgir casos de malformação fetal, alterações genéticas, anencefalia. “Tinha uma filha saudável e me colocava no lugar daqueles pais. Já pensou que legal ficar nove meses gerando um bebê sem cérebro que vai nascer e morrer logo em seguida?” Não demorou muito, apareceram outros casos: “Primeiro foi uma prima, depois vieram outros parentes, amigos próximos. Quando me dei conta, tinha formado uma clientela.”

Ventre livre
Doutor M. explica que o prazo-limite para que se realize um aborto é de 16 semanas. “Depois disso, além de ser arriscado para a mãe, as chances de ela ficar psicologicamente abalada são maiores”, adverte. O procedimento é simples e raramente dura mais de 20 minutos. “Gasto mais tempo conversando com as pacientes do que na cirurgia em si. Além de ter por lei direito a interromper a gravidez quando assim desejarem, acho que as mulheres também precisam de um bom acompanhamento psicológico. Ninguém fica feliz da vida por ter feito um aborto.”

Leia a íntegra desta reportagem na Tpm # 41

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