os encantados

O que você está ouvindo hoje?
Blues, muito blues. O blues me lança numa ponte diretamente ligada aos cantadores lá do sertão de Pernambuco, por causa da forma de construção das melodias, as poesias ditas, os lamentos e sentimentos fortes empregados ali. Isso faz parte das músicas que fazem a minha cabeça. Não paro de ouvir Robert Johnson, Nana Vasconcelos. Tenho uma grande dificuldade em ter a música na minha rotina, não sei se por que trabalho muito em estúdio, então geralmente fico escutando umas fitas do passado, da minha vida. Gosto muito de ouvir cantorias, músicas religiosas do mundo inteiro, que vêem carregadas desse encantado.

Você tem religião, acredita em algo?
Fui criado dentro do catolicismo, mas não me convence, não me dá respostas. Até porque a religião é bem isso, sinto hoje que a diferença das religiões é basicamente relacionada à questão do “de onde viemos” e “para onde vamos”. Cada uma tem a sua forma de responder a essas duas perguntas e são nessas repostas que elas se fazem diferentes. Essas duas perguntas são eternas, mas hoje vivo mais a não-resposta delas, ou então essa dúvida e a consciência da guerra gerada por essa dúvida. Acho que isso é a manutenção do movimento do mundo. E acredito que, para se ter uma religião, é preciso ter a certeza de alguma coisa, e não consigo ter muita certeza de nada. Não compreendo nada como algo evoluído. As respostas da igreja católica não me convencem. E também não me convencem outras religiões, como as vindas da áfrica. Acho belo, me emociono, viajo na música, mas não consigo embarcar na fé que limita o descobrimento, na fé que acomoda a curiosidade. Acho que a gente não sabe um monte de coisas, acho que os encantados existem, e esses encantados não são pessoinhas com pernas e braços, mas acredito que existem coisas que a gente não comanda, até porque estamos bastante fechados para essa comunicação.

Quando você está mal, precisando de uma ajuda, recorre para algum desses “encantados” que você diz?
Tenho mil e uma rezas, tenho um elo de ligação com essas coisas. Adoro quando minha mãe vai à igreja e deseja coisas positivas para o Cordel, reza pela gente. Em momentos difíceis até peço para ela rezar. Tem momentos que desejo que as pessoas penetrem no nosso universo para que a gente crie uma relação de espírito. Entendo quando o Mano Brown, dos Racionais, diz, em uma de suas músicas, que admira os crentes, também tenho essa visão. Antes de entrar no palco tenho uma rotina de coisas que me deixam mais seguro, algumas frases. Normalmente me retiro do agito, procuro um lugar mais sozinho, e começo a dizer o nome de várias pessoas que admiro. É engraçado porque às vezes me pego dizendo nomes que nem tinha pensado dizer, sei lá. Entre o nome de cantadores que conheci acabo dizendo o nome de alguma pessoa que acabei de conhecer e de outros que nem conheci. Outro dia me peguei dizendo o nome do Zé Celso Martinez, que conheci há pouco tempo porque fiz três músicas para O Homem Parte II. E, para mim, naquele momento, ele se incorporou ao meu ritual. Sei que esse é um pequeno teatro pessoal que faço para mim mesmo, mas nunca abandono isso. Se não tiver esses cinco minutos entro muito inseguro no palco.

Como aconteceu o convite da Bhrama para a propaganda no carnaval?
Nossos fãs nos criticaram muito por causa disso. A gente nunca filtrou as mensagens que mandam para o nosso site e nunca, nunquinha, tínhamos recebido uma crítica. Foi só fazer a propaganda da cerveja que choveram críticas. Acho que alguns fãs não gostaram porque estão acostumados à nossa trajetória totalmente independente e ao fato de nunca termos sido ligados a nenhuma gravadora, com uma música que não é hits de rádio. As pessoas têm um pensamento de que você não pode se veicular a uma marca, não pode “se vender”. Encarei essas críticas como elogio, porque vi como as pessoas esperam coisas grandes da gente. Foi muito legal isso ter acontecido porque eu realmente vou pensar melhor quando pintar um convite como esse de novo. O caso específico dessa propaganda achei legal fazer, porque o mote da campanha era “a cerveja de todos os carnavais”, com a Daniela Mercury representando o carnaval da Bahia, Dominguinhos da Viradouro o do Rio e o Cordel representando a folia pernambucana. Quando recebemos o convite, nos sentimos muito honrados. Eles não maquiaram a gente, pelo contrário, aparecemos na propaganda tocando como somos, com nosso cenário e nossos instrumentos. Eu não consigo ter uma imagem negativa desse convite.

Coordenação de produção Anita Castanheira Estilo Lara Gerin Beleza Omar Bergea Assistente de Fotografia Pablo Torrecilas Agradecimentos Cabo Mendes e Casa das Caldeiras