| A mãe dá a maior força
para pegá-la, porque ela tem a maior dificuldade em ir até
Arcoverde, morando em Santa Catarina. Ela vem de uma família
muito humilde e teve que ir para Brusque, onde tem alguns familiares
que deram emprego para ela.
Vocês são muito amigos?
Somos, embora acho que mágoas ainda existam, porque existe
toda uma confusão em torno da separação, principalmente
com a inexperiência que a gente tinha, eu com 22 e ela com
18.
E seu outro filho?
João Diniz Paes de Lira tem um ano e sete meses, nasceu num
12 de junho, dia dos namorados. Ele é filho de Tatiana Diniz,
que é de Olinda. Começamos a namorar no final de 1999,
ela é jornalista, trabalhava em Recife e viemos juntos para
São Paulo. Ela conseguiu emprego em um jornal de São
Paulo e até hoje está lá. Ficamos um tempo
morando em um apartamento, eu, ela e a banda toda. Depois fomos
morar só nós dois, quando João foi gerado.
A gente se separou no começo de 2003. Enfrentamos muita dificuldade
para arrumar babá e organizar a vida de João aqui
quando ela voltou a trabalhar depois da licença maternidade
– sem nenhum parente por perto é difícil. No
dia em que João nasceu a sensação era de estar
muito sozinho no mundo. Ele nasceu um mês antes do previsto.
Numa madrugada fria, a bolsa estourou e a gente saiu. Estava fazendo
a pré-produção do disco no estúdio e
ia ficar até as três da manhã. Ela pediu para
eu voltar antes, voltei, a bolsa estourou, pegamos o carro, chegamos
no hospital e ela teve um parto normal, o João nasceu às
7h30 da manhã. Foram muitas horas de dor e eu vivi tudo isso
ao lado dela. Ficamos juntos até janeiro. A gente estava
se desentendendo, tivemos dificuldade em construir coisas boas,
ligadas a carinho.
Essa dificuldade teve a ver com a sua
carreira, ou, de repente, com o fato de você ser tão
novo?
Não sei se teve a ver com a carreira. Conheço muita
gente que não é músico, e também tem
muita dificuldade em lidar com os relacionamentos. Acredito que
eu tenha esses conflitos e essas confusões, tenho uma alma
trágica – de sempre ir em busca de sentimentos de transcendência,
de uma liberdade da minha existência. Isso já é
um conflito porque a gente, quando começa a morar junto,
também tem outro sonho para cuidar, não só
o nosso. Várias vezes, no caminhar desses sonhos, os conflitos
aparecem e tem pessoas que conseguem superá-los, outras não.
A turma de músicos pernambucanos
tem a maior fama de mulherengos aqui em São Paulo. Você
se encaixa nisso?
Não [ri]. Esse não é meu problema.
O que acontece é que vivo alguns momentos em que vou para
um lugar de difícil acesso para outras pessoas. Passo muitos
momentos do dia em viagens que se tornam distantes das pessoas que
estão ao meu lado. Não sei te dizer exatamente. Talvez
essa fama de mulherengo seja um acontecimento da nossa sociedade,
uma herança. Não me considero mulherengo, inclusive
sou muito tímido, não consigo dizer poesia para conquistar
alguém.
E para a pessoa que você está
amando, consegue dizer?
É raro. E são raríssimas as poesias que fiz
para alguém específico. Fiz uma para a minha filha,
“O Cordel do Planeta Colorido”. Mas não é
a revelação de um sentimento meu, porque na poesia
não conseguiria utilizar as palavras para um efeito poético
de um amor que eu tenha.
O João, que mora aqui em São
Paulo, você vê sempre?
Sim. Quando estou em São Paulo, vejo todos os dias. Quando
estou por aqui, vou levar e buscar na escolinha.
Você e a mãe dele se dão
bem?
A separação é recente e ainda existem algumas
feridas.
Você, nos shows, deixa o público
– principalmente o feminino - numa empolgação
que é quase uma catarse. Por que acontece isso?
Nos espetáculos existe uma comunicação que
leva o público a uma determinada dança bastante envolvida
com a percussão e com a poesia que está rolando. Isso
lembra alguns espetáculos que envolvem celebração,
acho que às vezes essa resposta do público feminino
se processa também nos homens, mas de uma forma mais contida.
Sempre tentei perceber isso para me dar conta do que está
sendo mostrado no palco, onde você está muito iluminado,
com a voz muito alta por causa do microfone. Naquele momento, você
representa uma série de coisas. Os espetáculos falam
de coisas encantadas, de sentimentos como amor, saudade, tempestade,
palhaços sem futuro. Hoje, quando vejo as pessoas reagirem
a esses sentimentos com todo aquele envolvimento e entrega, percebo
que faz parte da celebração que estamos propondo.
Quando está no palco, você
percebe o envolvimento e a histeria do público feminino?
Eu sinto, mas, sinceramente, não sei explicar.
É bom sentir isso?
Eu tenho uma ligação com o palco de muita entrega
e até às vezes acho que toda minha lentidão
e timidez fora é como se fosse o retrair de uma bola que,
no palco, se solta. Como se fosse um guardar energias, porque quando
estou me apresentando gosto de mergulhar naquela vida que foi criada
em cima e em torno do palco. Às vezes tenho receio do que
transforma esse desejo, porque para mim é muito boa toda
aquela energia que se forma, mas também não é
algo que eu carrego com tranqüilidade porque não sei
o quanto tem de envolvimento com o personagem criado ali –
é justamente essa a dificuldade maior da pessoa que se apresenta.
É exatamente nesse limite entre o público e o privado
que o bicho pega.
Já aconteceu de alguma espectadora
do show ir atrás de você depois do espetáculo?
Já aconteceu bastante por causa da imagem criada no palco.
Não sei exatamente o que provoca o desejo e tenho dificuldade
em sair da apresentação sem uma relação
conturbada com esse tipo de desejo. É um pouco chato porque
minha relação com as pessoas começa a ficar
muito fria, distante, saio e vou direto para a van, sem falar com
ninguém.
Você chegou a namorar alguma fã?
No começo do Cordel sim, vivi um período desses, principalmente
na noite de Recife, com a banda já conhecida, mas em mim
pesou de uma forma muito cruel porque o lance da poesia e da música
era extremamente ligado a essas relações. Aconteceu
mais de uma vez de a garota pedir para eu recitar uma poesia quando
estávamos a sós e isso era extremamente desagradável,
desconfortável, totalmente desconcertante. Não conseguia
trazer essa coisa do palco para a minha vida na hora de conquistar
e até mesmo na hora de me relacionar mesmo. Quando estava
corajoso dizia que aquilo me incomodava, mas há momentos
em que a gente é extremamente covarde e submisso.
Você namora a Leandra Leal há
quanto tempo?
Estamos juntos há quase um ano e meio. Nos conhecemos porque
a Leandra produzia os shows do Cordel no Teatro Rival, no Rio de
Janeiro, o teatro que é da mãe e do avô dela.
Ela reavivou o teatro e passou a produzir coisas legais ali com
As Três Meninas, produtora dela e de outras duas amigas. Fizemos
várias apresentações lá, então
já nos conhecíamos, mas sem muita intimidade, conversávamos
sobre assuntos ligados a shows. Depois ficamos muito tempo sem nos
ver. Nos encontramos no carnaval de Recife em 2003 e fomos nos conhecendo
melhor. Um mês depois nos encontramos no Rio e aí é
que ficamos.
Por causa dessas suas viagens e dessa
introspecção que você fala dá para imaginar
que não deve ser fácil te namorar.
Desde adolescente tive grandes amores no meu pensamento e na minha
idéia e praticamente criava um universo com o cenário
que a minha cabeça montava, mas no dia-a-dia sempre fui muito
tímido para a realização dessas imagens. Acredito
que isso criou um universo na minha vida de busca de imagens no
pensamento, às vezes criando uma distância do dia-a-dia,
da rotina. Minhas relações a dois são desenvolvidas
a partir dessa condição, desse dia-a-dia com as viagens
– isso tem uma hora que começa a se tornar doloroso
para quem está junto. E também o amor ali presente,
mas não a presença da expressão dele de forma
concreta, assumindo duas características humanas, com erros
e defeitos. Geralmente vivo viajando, o espetáculo me conduz
ao conhecimento de muitas pessoas, estar em várias cidades,
muita bebida, muitos encontros no camarim. Isso vai criando uma
insegurança para quem está fixo em um lugar me esperando.
Mas acredito que existam pessoas que consigam conduzir esse problema
de uma forma sublime e evoluída. É fundamental passar
para essa pessoa uma segurança muito grande, através
de gestos ou atitudes práticas. Mas sinceramente me atrapalhei
em vários momentos nesse sentido e várias vezes fui
pouquíssimo amigo dessas mulheres que estiveram comigo. »
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