OS OIM DO MEU AMOR

Quantos filhos você tem?
Dois. Uma menina, Elvira – que é o nome da minha avó – de cinco anos, que tive com 22 anos com a Marina, uma grande artista de Arcoverde, atriz e bailarina. Hoje ela mora em Santa Catarina, e Elvira mora com os avós maternos lá em Arcoverde. Nós namoramos uns dois anos mas quando a Marina engravidou não estávamos mais juntos, voltamos para essa energia do nascimento de Elvira. No dia da Folia de Reis, 6 de janeiro, ela nasceu. Tem uma coisa muito marcante nesse episódio, porque Elvira no dia 9 já fui para Recife fazer uma apresentação no teatro Barreto Franco, a convite de Guti. Logo na seqüência a gente foi viajar com a banda. E isso até hoje pesa, talvez seja uma das coisas que mais questione na minha vida, porque de qualquer forma foi uma escolha naquele momento. Não sei por que, mas naquele momento a gente imaginou só ela nascendo e tê-la. E aí, quando ela nasceu, eu já estava para fazer essa viagem – sempre numa esperança sem fim de que era um tempo, e que eu voltaria ou iria buscá-la... E terminou que eu nunca mais voltei a viver em Arcoverde. De Recife vim para São Paulo e aqui fiquei. Todo fim do ano vou para Recife e só volto depois do Carnaval, tenho feito isso.

Essa distância da sua filha te deixa agoniado?
Sim, e passo horas pensando de que forma trazê-la para junto de mim, para mais perto de mim, porque é uma saudade que está sempre presente, que me faz companhia eterna. A minha intenção é trazê-la para São Paulo, para morar comigo. Agora aluguei essa casa, lá em cima tem um quarto para ela, comprei um circozinho, enfeitei o chão daqueles quadrados de letras e a trouxe para passar as férias do verão passado aqui. Fui com ela visitar a mãe também.

Ela fica bem quando está com você?
Sim, mas sempre comenta da saudade de Arcoverde, que é um mundo para ela. Tem uma menina que cuida dela desde pequena, uma babá que, meu Deus do céu, ela adora e morre de saudades. Quero montar um espaço onde ela se sinta à vontade e segura. Todo o mundo diz: “Ai, que absurdo, quem vai fazer as tarefas de levar e buscar na escola?”, porque tenho muitas apresentações e viagens, mas vou resolver; pelo menos o desejo está lançado. A princípio, acredito que ela tenha mais segurança com os avós, mais estabilidade emocional, mas mesmo sabendo disso acho que, como pai, devo criar minha filha ao meu lado.

A mãe dá a maior força para pegá-la, porque ela tem a maior dificuldade em ir até Arcoverde, morando em Santa Catarina. Ela vem de uma família muito humilde e teve que ir para Brusque, onde tem alguns familiares que deram emprego para ela.

Vocês são muito amigos?
Somos, embora acho que mágoas ainda existam, porque existe toda uma confusão em torno da separação, principalmente com a inexperiência que a gente tinha, eu com 22 e ela com 18.

E seu outro filho?
João Diniz Paes de Lira tem um ano e sete meses, nasceu num 12 de junho, dia dos namorados. Ele é filho de Tatiana Diniz, que é de Olinda. Começamos a namorar no final de 1999, ela é jornalista, trabalhava em Recife e viemos juntos para São Paulo. Ela conseguiu emprego em um jornal de São Paulo e até hoje está lá. Ficamos um tempo morando em um apartamento, eu, ela e a banda toda. Depois fomos morar só nós dois, quando João foi gerado. A gente se separou no começo de 2003. Enfrentamos muita dificuldade para arrumar babá e organizar a vida de João aqui quando ela voltou a trabalhar depois da licença maternidade – sem nenhum parente por perto é difícil. No dia em que João nasceu a sensação era de estar muito sozinho no mundo. Ele nasceu um mês antes do previsto. Numa madrugada fria, a bolsa estourou e a gente saiu. Estava fazendo a pré-produção do disco no estúdio e ia ficar até as três da manhã. Ela pediu para eu voltar antes, voltei, a bolsa estourou, pegamos o carro, chegamos no hospital e ela teve um parto normal, o João nasceu às 7h30 da manhã. Foram muitas horas de dor e eu vivi tudo isso ao lado dela. Ficamos juntos até janeiro. A gente estava se desentendendo, tivemos dificuldade em construir coisas boas, ligadas a carinho.

Essa dificuldade teve a ver com a sua carreira, ou, de repente, com o fato de você ser tão novo?
Não sei se teve a ver com a carreira. Conheço muita gente que não é músico, e também tem muita dificuldade em lidar com os relacionamentos. Acredito que eu tenha esses conflitos e essas confusões, tenho uma alma trágica – de sempre ir em busca de sentimentos de transcendência, de uma liberdade da minha existência. Isso já é um conflito porque a gente, quando começa a morar junto, também tem outro sonho para cuidar, não só o nosso. Várias vezes, no caminhar desses sonhos, os conflitos aparecem e tem pessoas que conseguem superá-los, outras não.

A turma de músicos pernambucanos tem a maior fama de mulherengos aqui em São Paulo. Você se encaixa nisso?
Não [ri]. Esse não é meu problema. O que acontece é que vivo alguns momentos em que vou para um lugar de difícil acesso para outras pessoas. Passo muitos momentos do dia em viagens que se tornam distantes das pessoas que estão ao meu lado. Não sei te dizer exatamente. Talvez essa fama de mulherengo seja um acontecimento da nossa sociedade, uma herança. Não me considero mulherengo, inclusive sou muito tímido, não consigo dizer poesia para conquistar alguém.

E para a pessoa que você está amando, consegue dizer?
É raro. E são raríssimas as poesias que fiz para alguém específico. Fiz uma para a minha filha, “O Cordel do Planeta Colorido”. Mas não é a revelação de um sentimento meu, porque na poesia não conseguiria utilizar as palavras para um efeito poético de um amor que eu tenha.

O João, que mora aqui em São Paulo, você vê sempre?
Sim. Quando estou em São Paulo, vejo todos os dias. Quando estou por aqui, vou levar e buscar na escolinha.

Você e a mãe dele se dão bem?
A separação é recente e ainda existem algumas feridas.

Você, nos shows, deixa o público – principalmente o feminino - numa empolgação que é quase uma catarse. Por que acontece isso?
Nos espetáculos existe uma comunicação que leva o público a uma determinada dança bastante envolvida com a percussão e com a poesia que está rolando. Isso lembra alguns espetáculos que envolvem celebração, acho que às vezes essa resposta do público feminino se processa também nos homens, mas de uma forma mais contida. Sempre tentei perceber isso para me dar conta do que está sendo mostrado no palco, onde você está muito iluminado, com a voz muito alta por causa do microfone. Naquele momento, você representa uma série de coisas. Os espetáculos falam de coisas encantadas, de sentimentos como amor, saudade, tempestade, palhaços sem futuro. Hoje, quando vejo as pessoas reagirem a esses sentimentos com todo aquele envolvimento e entrega, percebo que faz parte da celebração que estamos propondo.

Quando está no palco, você percebe o envolvimento e a histeria do público feminino?
Eu sinto, mas, sinceramente, não sei explicar.

É bom sentir isso?
Eu tenho uma ligação com o palco de muita entrega e até às vezes acho que toda minha lentidão e timidez fora é como se fosse o retrair de uma bola que, no palco, se solta. Como se fosse um guardar energias, porque quando estou me apresentando gosto de mergulhar naquela vida que foi criada em cima e em torno do palco. Às vezes tenho receio do que transforma esse desejo, porque para mim é muito boa toda aquela energia que se forma, mas também não é algo que eu carrego com tranqüilidade porque não sei o quanto tem de envolvimento com o personagem criado ali – é justamente essa a dificuldade maior da pessoa que se apresenta. É exatamente nesse limite entre o público e o privado que o bicho pega.

Já aconteceu de alguma espectadora do show ir atrás de você depois do espetáculo?
Já aconteceu bastante por causa da imagem criada no palco. Não sei exatamente o que provoca o desejo e tenho dificuldade em sair da apresentação sem uma relação conturbada com esse tipo de desejo. É um pouco chato porque minha relação com as pessoas começa a ficar muito fria, distante, saio e vou direto para a van, sem falar com ninguém.

Você chegou a namorar alguma fã?
No começo do Cordel sim, vivi um período desses, principalmente na noite de Recife, com a banda já conhecida, mas em mim pesou de uma forma muito cruel porque o lance da poesia e da música era extremamente ligado a essas relações. Aconteceu mais de uma vez de a garota pedir para eu recitar uma poesia quando estávamos a sós e isso era extremamente desagradável, desconfortável, totalmente desconcertante. Não conseguia trazer essa coisa do palco para a minha vida na hora de conquistar e até mesmo na hora de me relacionar mesmo. Quando estava corajoso dizia que aquilo me incomodava, mas há momentos em que a gente é extremamente covarde e submisso.

Você namora a Leandra Leal há quanto tempo?
Estamos juntos há quase um ano e meio. Nos conhecemos porque a Leandra produzia os shows do Cordel no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, o teatro que é da mãe e do avô dela. Ela reavivou o teatro e passou a produzir coisas legais ali com As Três Meninas, produtora dela e de outras duas amigas. Fizemos várias apresentações lá, então já nos conhecíamos, mas sem muita intimidade, conversávamos sobre assuntos ligados a shows. Depois ficamos muito tempo sem nos ver. Nos encontramos no carnaval de Recife em 2003 e fomos nos conhecendo melhor. Um mês depois nos encontramos no Rio e aí é que ficamos.

Por causa dessas suas viagens e dessa introspecção que você fala dá para imaginar que não deve ser fácil te namorar.
Desde adolescente tive grandes amores no meu pensamento e na minha idéia e praticamente criava um universo com o cenário que a minha cabeça montava, mas no dia-a-dia sempre fui muito tímido para a realização dessas imagens. Acredito que isso criou um universo na minha vida de busca de imagens no pensamento, às vezes criando uma distância do dia-a-dia, da rotina. Minhas relações a dois são desenvolvidas a partir dessa condição, desse dia-a-dia com as viagens – isso tem uma hora que começa a se tornar doloroso para quem está junto. E também o amor ali presente, mas não a presença da expressão dele de forma concreta, assumindo duas características humanas, com erros e defeitos. Geralmente vivo viajando, o espetáculo me conduz ao conhecimento de muitas pessoas, estar em várias cidades, muita bebida, muitos encontros no camarim. Isso vai criando uma insegurança para quem está fixo em um lugar me esperando. Mas acredito que existam pessoas que consigam conduzir esse problema de uma forma sublime e evoluída. É fundamental passar para essa pessoa uma segurança muito grande, através de gestos ou atitudes práticas. Mas sinceramente me atrapalhei em vários momentos nesse sentido e várias vezes fui pouquíssimo amigo dessas mulheres que estiveram comigo. »