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Nessa época o Cordel era bem teatral?
Sim, eram 40 minutos de poesia e meia hora de música. A gente
recebeu o convite do Guti, que é nosso produtor até
hoje (nessa época ele era produtor do mundo livre s/a). Certa
vez, o Cordel se apresentou em Recife em um festival chamado “Janeiro
de Grandes Espetáculos”. Ou era “Todos Verão
Teatro”? É justamente essa a confusão da história,
porque os dois espetáculos estrearam no mesmo dia e o Guti
marcou com a namorada em um, mas acabou, sem querer, indo ao outro.
Foi aí que ele viu o Cordel. Depois foi ao camarim
e disse que queria falar com a gente e nos convidou a tocar no Rec-Beat,
no meio da rua. Nós não achamos que aquilo ia dar
certo, tinha 40 minutos de poesia... Mas ele disse que sim, que
daria certo, incentivou. Achávamos que o espetáculo
só fazia sentido com a introspecção que o teatro
provoca nas pessoas, aquela coisa de você sentar, não
estar bebendo, e ficar ali no escuro. Você consegue mergulhar
na luz que o espetáculo dá ou mesmo naquela escuridão
típica dos teatros. A gente disse que não, porque
a proposta da gente não era essa, nossa idéia era
seguir no teatro. Mas ele disse que no dia seguinte ligaria para
a gente. E ligou. Depois ligou de Paris, e percebemos como ele estava
interessado nessa apresentação. A gente conhecia mundo
livre s/a e tinha admiração, então decidimos
ir. Montamos um espetáculo com novos integrantes, deixando
a poesia e ampliando mais a música. As poesias continuaram
servindo como ligação entre as músicas e facilitando
nosso contar de histórias.
Quem dirigia, quem inventava, quem organizava
o espetáculo?
Todos nós, mas eu tinha aquilo de ser o mais antigo, de ter
dado o nome ao grupo. Foi depois dessa apresentação
em Recife que a gente começou a aparecer na imprensa e, de
certa maneira, foi ela quem fixou o Cordel do Fogo Encantado como
o nome da banda. De 1997 a 1999 houve um tremendo silêncio
em relação ao cordel. A mídia tem muita dificuldade
em olhar para o interior. Só quando chegamos a Recife de
vez, em 1999, é que começamos a sair na mídia
assim: “carreira meteórica”. A gente achava engraçado
falarem isso, porque na verdade o que tinha acontecido era um silêncio
de quase dois anos numa carreira estruturada. Em 1999 foi quando
a imprensa começou a botar nosso nome de Cordel do Fogo Encantado.
Foi o primeiro espetáculo musical que a gente fez.
Qual a diferença desse primeiro
espetáculo para os demais que vocês fizeram?
A gente foi descobrindo a música, uma outra forma de comunicação.
Foi uma descoberta de todos naquele momento. Cleiton já tocava
violão, mas descobriu a composição. Foi um
momento muito mágico para a gente. Nunca me imaginava ligado
à música e acabei descobrindo-a como mais uma possibilidade
de expressão. Para mim foi, e até hoje vem sendo,
um encontro que me provoca sensações muito fortes,
de conhecimento. Essa música que me interessa não
é uma música bem cantada, bem elaborada ou, na melhor
das hipóteses, estruturada dentro de uma ousadia ou de uma
surpresa melódica. O que me interessa é a música
que ultrapassa o limite de ser ouvida, a vida que se cria quando
o som começa. É isso que busco e é dessa forma
que vivo esse encanto com a música. Descobri também
que não é o instrumento que produz a música
e sim a música que produz o instrumento. A música
é muito mais antiga que a gente. Esse meu encontro com a
música foi inesquecível, retratei isso em “Antes
dos Mouros”, do primeiro disco, que dizia: “Os trovões
já batucavam/ Vanguardistas batucadas/ O vento já
produzia/ Árias de ar e poeira/ O mar nunca atrasará/
O compasso do batuque”. Essa é a música que
busco, desde esse primeiro encontro até hoje, a música
que seja história, vida, ilusão e desilusão,
que não seja apenas a celebração de um ritmo
e sim a invenção e a expressão.
Como foi essa primeira apresentação
do Cordel fora de um teatro?
Era tudo diferente. Céu aberto, centenas de pessoas, e álcool
rolando solto. Se bem que jogávamos com a hipótese
de as pessoas estarem doidonas a nosso favor, porque de qualquer
forma a nossa música busca mexer com determinadas áreas
do comportamento que podem ligeiramente levar a essa idéia
do desligamento de algumas normas. A gente não entendia como
aconteceria a relação com a comunicação,
afinal, a gente não só manda a mensagem, a gente recebe.
Então a grande dúvida da noite era o que receberíamos
daquela noite para acontecer o Fogo Encantado. Não interessava
criar um muro entre nós e a platéia. Nosso grande
medo era o passar despercebido, mensagem não enviada. Estávamos
muito tensos. Subi no palco para passar som, e disse para o cara
que comandava o palco que nós não conhecíamos
o equipamento, não tínhamos roadies, e que era nossa
primeira vez. A gente não tinha nem produtor. Ele se sensibilizou
com tanta verdade e me ajudou a montar todo o som. A equipe ajudou
a fazer os equipamentos funcionarem. Um dos integrantes da banda
ficou preso no trânsito de uma das pontes de Recife e chegou
quando a gente já estava no palco, eu dizendo a primeira
poesia.
Como foi com o público?
Foi um momento de celebração. Até hoje temos
isso com o público de Recife. A gente desceu do palco, voltou
para a casinha que tínhamos alugado, e no dia seguinte o
Guti ligou para trabalharmos juntos. Depois disso, começamos
a pensar o que ganharíamos e o que perderíamos com
esse formato de show, com mais música, trocando o contra-regra
pelo roadie, ter que aprender a montar os cenários no meio
de festivais de música, com poucas possibilidades de pendurar
coisas. Resolvemos fazer essas adaptações porque estávamos
diante de uma estrada interessante de ser seguida. Todo mundo estava
a fim de viver aquilo e trazer os elementos do teatro para o palco
de shows.
Até então você nunca
tinha cantado?
Nunca. E até hoje acho que não canto. Eu digo poesias.
Em alguns momentos grito poesias também. Não acho
que sou um cantor.
Como rolou o primeiro CD?
Nosso primeiro álbum saiu em 2001, mas em 2000 a TRIP
lançou um CD com 10 músicas nossas que foi o maior
sucesso. Até hoje a gente anda e aparece alguém que
conhece a banda por conta disso. Foi nosso maior impulso em relação
a uma divulgação nacional. Quando começamos
a fazer shows, muitas pessoas já sabiam cantar as músicas
devido a esse CD.
Qual dos dois discos você gosta
mais?
Do segundo, porque ele é uma tentativa de realização
de um som autoral que traz a nossa história e a nossa vida.
Esse é o som do Palhaço do Circo Sem Futuro
– a tempestade, o conflito, a aflição, um som
extremamente impaciente, um trovão. Agressivo e profundamente
revelador de sensações pelas quais estávamos
passando naquele momento. Por causa da forte presença da
percussão no palco, muita gente tem a imagem de que o Cordel
é tradicionalista e que faz sons exóticos e arcaicos,
isso é um grande engano. Engano fruto de cinco séculos
de doutrinamento do que seria uma música antenada ou ligada
ao futuro. Não acredito que a vida, assim como a música,
seja um corredor em que se anda para a frente e para trás.
Não acho que uma música olhe para o passado ou para
o futuro, acho que ela olha para todos os lados. Tudo isso percebo
com mais clareza no segundo disco, porque o primeiro foi um disco
meio bandeira, um disco de chegada, explicando de onde viemos e
a que viemos. No primeiro disco tivemos muita preocupação
em deixar clara a diferença entre o nosso som e o movimento
mangue beat que o pessoal de Recife estava fazendo. A gente queria
se diferenciar, não por não curtir, mas sim para sobreviver
e não ser mais uma banda tentando aparecer ali. A busca por
um som que saísse única e exclusivamente da nossa
cabeça sempre existiu, e no primeiro disco a gente tem muita
coisa ligada a isso, mas também a muitos ritmos já
existentes.
O primeiro show de vocês foi em
99, o primeiro álbum foi em 2001 e hoje vocês são
nacionalmente reconhecidos. Como aconteceu isso?
Não acredito que tenha sido rápido e nem
que sejamos reconhecidos em todos os cantos do Brasil. Estamos buscando
uma comunicação maior com o interior do país,
onde a gente tem a maior dificuldade de entrar e de fazer shows.
Mas como foi o pulo de Recife para o mundo?
Em Recife a gente praticamente não morou. Fomos de Arcoverde
para lá em fevereiro de 1999 e em setembro já viemos
para São Paulo. Fizemos um show no velódromo da USP
em que tinham 10 pessoas, um frio danado, ninguém no gramado.
Fizemos uma temporada no Blen Blen [casa de shows] que
começou com 40 pessoas, e foi aumentando. Nos últimos
shows tinha umas 300 pessoas.
Por que São Paulo?
Vários grupos que admirava tinham feito essa retirada, como
os do movimento mangue beat, que eram o que a gente tinha por referência
de técnica, de luz, de espetáculo naquele momento.
Não éramos amigos, mas ficamos por conta da convivência.
Quando vocês foram para Recife,
o Chico já tinha morrido?
Sim, nunca vi o Chico tocar. Para o meu trabalho no palco, acho
que tem uma grande relevância esse fato, porque dizem que
ele era tão genial, tão grandioso, que se tivesse
visto estaria imitando ele agora. Com as poucas coisas que vi em
televisão, entrevistas, fitas de vídeo, revista, realmente
entendo o Chico como um artista, um palhaço, um clown maravilhoso,
um poeta muito poderoso. Claro que serviu como abertura de possibilidades
para a gente poder lançar a poesia da gente. Ao mesmo tempo
fico triste porque não vi.
Mas vocês já tinham ouvido
o Chico e já sabiam quem ele era?
Claro. A gente tinha os discos deles e já tínhamos
visto um show do mundo livre s/a lá em Arcoverde –
que foi uma coisa estrondosa, porque nunca a gente tinha recebido
uma apresentação como aquela, nem parecida. Quando
terminou o show saímos, eu, o Otto – ele era do mundo
livre s/a ainda – e o Bactéria, e fomos beber na praça
da cidade, na farra da noite. Passamos por um cara que estava tocando
pandeiro e Otto pediu o pandeiro e saiu tocando “Ciranda de
Maluco”. Ele participou de um pedaço do que viria a
ser o Cordel.
Hoje você e o pessoal da Nação
são muito amigos?
Cada um tem uma amizade maior com alguém. Eles são
muito amigos entre eles, mas nós, do Cordel, viemos em outra
época e de outra vivência. A gente não viveu
o momento do nascimento do movimento do mangue beat em Recife, pois
estávamos em Arcoverde. Recebíamos esse som, mas não
conseguíamos enviar o nosso. Existia uma espécie de
muro invisível que não permitia. Mas a gente sabia
o que estava acontecendo. Cada um tem suas amizades. Sou muito ligado
a alguns dos meninos do mundo livre s/a e do Nação
Zumbi, tudo por questões pessoais, de convivência.
Muito dessa amizade foi criada bem recentemente, não são
amizades que têm estruturas antigas e raízes bem fincadas.
Quem são seus grandes amigos?
Meus amigos estão em Arcoverde, alguns em São Paulo,
outros em Recife. Existe um monte de pessoas com quem criei uma
grande relação de amizade, amizade da forma que concebo,
com a sua segurança de que, acontecendo o que aconteça,
aquela pessoa vai estar ali e vai tentar te compreender e ajudar,
construir algo com você.
Foi difícil se adaptar a São
Paulo?
É muito difícil se adaptar, porque a cidade passa
uma sensação de não-conforto, é um lugar
extremamente ligado a uma punição de não se
revelar. São Paulo é um lugar para onde um monte de
conterrâneos já tinham vindo para buscar um sonho,
uma possibilidade de ampliação de horizonte, uma evolução
na vida pessoal. Então só podia ser um mito para mim.
A adaptação ocorreu como acho que toda adaptação
ocorre aqui, na violência desse contato tão rude e
tão diferente da paisagem que tinha vivido e na qual tinha
me criado. São Paulo tem um monte de gente que veio se juntar
no mesmo lugar para a realização de seus sonhos, e
esse lugar fere – a cidade é feita pelo sonho dessas
pessoas. São Paulo tem essa característica, de muita
gente buscando. Comecei a ter uma relação de amor
com São Paulo quando comecei a entender que, na verdade,
esse lugar é vítima dessa procura, dessa busca, e
que na verdade é uma grande mãe que tem um colo desconfortável,
é muito magra, uma mãe de colo ossudo. Essa mãe,
quando vai ninar seus filhos, tem um cantar desafinado de tanto
ninar as pessoas. Mesmo em condições subumanas essa
cidade agüenta. Recife, por exemplo, não agüentaria,
nem o Rio de Janeiro. Eu tenho um filho nascido
em São Paulo.
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