cordel estradeiro

Então você só não foi em frente no teatro porque surgiu o Cordel?
Sm. Fiz um espetáculo de poesias na escola em que estudava chamado Brasil Caboclo. Já tinha amigos tocando percussão e violão e a gente recitando poesia. Desse espetáculo nasceu mais ou menos a concepção do Cordel, tinha um cenário elaborado, um roteiro, isso de a poesia ser ligada a uma cena, mas com a estrutura de microfone e ambiente de show. Essas coisas já anunciavam a vinda do Cordel, que surgiu logo depois, em 1997, como um espetáculo chamado Cordel do Fogo Encantado. Não era o nome do grupo, era o nome daquele espetáculo. A gente não tinha a idéia de, com esse título, homenagear a literatura de cordel, até porque não era dessa forma que a gente trazia essa poesia para o espetáculo. Muitas delas não eram nem literatura de cordel, porque esta inclui uma poesia escrita, e muitas das poesias que a gente trazia eram de oralidade. A idéia do Cordel do Fogo Encantado era de contar a história do Fogo Encantado. Também levantava uma metáfora maravilhosa, porque a definição de literatura de cordel vem de cordão, os cordões pendurados na feira com os folhetos presos. Uma definição extremamente pejorativa vinda de quem estudava e não de quem fazia. Resumia-se muito da sua viagem a essa condição: literatura de cordão. A gente achava maravilhosa essa metáfora, porque, nesse mundo capitalista, era interessante dizer que o nosso som estava pendurado em um cordão dessa grande feira, desse grande mercado.

Como surgiu o Cordel de hoje?
Várias pessoas faziam parte dessa primeira experiência. Arcoverde é uma cidade relativamente grande, tem 70 mil habitantes. Naquele momento muitos fizeram parte, era uma turma que depois não mais trabalhou, com exceção do Verônio, que estava desde o começo, mais depois saiu [em 1999]. O Brasil Caboclo tinha uma turma e o Cordel do Fogo Encantado, outra turma. Já tinha Cleiton, o violonista, que toca até hoje. Quando fomos para Recife teve gente que não pôde ir e ficou em Arcoverde. Isso em 1997, quando a gente fez apresentações em todas as cidades vizinhas. Depois fizemos uma turnê pelo Sesc que nos proporcionou a primeira guinada rumo a um trabalho mais profissional. Compramos cases para os instrumentos, juntamos uma grana e fomos pra Recife em 1999. Chegando lá, alugamos uma casa e começamos a fazer algumas apresentações.

“Nunca vi o Chico tocar, ele morreu antes. Fico muito triste, mas para o meu trabalho no palco foi até bom. Dizem que ele era tão genial e grandioso que, se eu tivesse visto, estaria imitando-o agora”


Nessa época o Cordel era bem teatral?
Sim, eram 40 minutos de poesia e meia hora de música. A gente recebeu o convite do Guti, que é nosso produtor até hoje (nessa época ele era produtor do mundo livre s/a). Certa vez, o Cordel se apresentou em Recife em um festival chamado “Janeiro de Grandes Espetáculos”. Ou era “Todos Verão Teatro”? É justamente essa a confusão da história, porque os dois espetáculos estrearam no mesmo dia e o Guti marcou com a namorada em um, mas acabou, sem querer, indo ao outro. Foi aí que ele viu o Cordel. Depois foi ao camarim e disse que queria falar com a gente e nos convidou a tocar no Rec-Beat, no meio da rua. Nós não achamos que aquilo ia dar certo, tinha 40 minutos de poesia... Mas ele disse que sim, que daria certo, incentivou. Achávamos que o espetáculo só fazia sentido com a introspecção que o teatro provoca nas pessoas, aquela coisa de você sentar, não estar bebendo, e ficar ali no escuro. Você consegue mergulhar na luz que o espetáculo dá ou mesmo naquela escuridão típica dos teatros. A gente disse que não, porque a proposta da gente não era essa, nossa idéia era seguir no teatro. Mas ele disse que no dia seguinte ligaria para a gente. E ligou. Depois ligou de Paris, e percebemos como ele estava interessado nessa apresentação. A gente conhecia mundo livre s/a e tinha admiração, então decidimos ir. Montamos um espetáculo com novos integrantes, deixando a poesia e ampliando mais a música. As poesias continuaram servindo como ligação entre as músicas e facilitando nosso contar de histórias.

Quem dirigia, quem inventava, quem organizava o espetáculo?
Todos nós, mas eu tinha aquilo de ser o mais antigo, de ter dado o nome ao grupo. Foi depois dessa apresentação em Recife que a gente começou a aparecer na imprensa e, de certa maneira, foi ela quem fixou o Cordel do Fogo Encantado como o nome da banda. De 1997 a 1999 houve um tremendo silêncio em relação ao cordel. A mídia tem muita dificuldade em olhar para o interior. Só quando chegamos a Recife de vez, em 1999, é que começamos a sair na mídia assim: “carreira meteórica”. A gente achava engraçado falarem isso, porque na verdade o que tinha acontecido era um silêncio de quase dois anos numa carreira estruturada. Em 1999 foi quando a imprensa começou a botar nosso nome de Cordel do Fogo Encantado. Foi o primeiro espetáculo musical que a gente fez.

Qual a diferença desse primeiro espetáculo para os demais que vocês fizeram?
A gente foi descobrindo a música, uma outra forma de comunicação. Foi uma descoberta de todos naquele momento. Cleiton já tocava violão, mas descobriu a composição. Foi um momento muito mágico para a gente. Nunca me imaginava ligado à música e acabei descobrindo-a como mais uma possibilidade de expressão. Para mim foi, e até hoje vem sendo, um encontro que me provoca sensações muito fortes, de conhecimento. Essa música que me interessa não é uma música bem cantada, bem elaborada ou, na melhor das hipóteses, estruturada dentro de uma ousadia ou de uma surpresa melódica. O que me interessa é a música que ultrapassa o limite de ser ouvida, a vida que se cria quando o som começa. É isso que busco e é dessa forma que vivo esse encanto com a música. Descobri também que não é o instrumento que produz a música e sim a música que produz o instrumento. A música é muito mais antiga que a gente. Esse meu encontro com a música foi inesquecível, retratei isso em “Antes dos Mouros”, do primeiro disco, que dizia: “Os trovões já batucavam/ Vanguardistas batucadas/ O vento já produzia/ Árias de ar e poeira/ O mar nunca atrasará/ O compasso do batuque”. Essa é a música que busco, desde esse primeiro encontro até hoje, a música que seja história, vida, ilusão e desilusão, que não seja apenas a celebração de um ritmo e sim a invenção e a expressão.

Como foi essa primeira apresentação do Cordel fora de um teatro?
Era tudo diferente. Céu aberto, centenas de pessoas, e álcool rolando solto. Se bem que jogávamos com a hipótese de as pessoas estarem doidonas a nosso favor, porque de qualquer forma a nossa música busca mexer com determinadas áreas do comportamento que podem ligeiramente levar a essa idéia do desligamento de algumas normas. A gente não entendia como aconteceria a relação com a comunicação, afinal, a gente não só manda a mensagem, a gente recebe. Então a grande dúvida da noite era o que receberíamos daquela noite para acontecer o Fogo Encantado. Não interessava criar um muro entre nós e a platéia. Nosso grande medo era o passar despercebido, mensagem não enviada. Estávamos muito tensos. Subi no palco para passar som, e disse para o cara que comandava o palco que nós não conhecíamos o equipamento, não tínhamos roadies, e que era nossa primeira vez. A gente não tinha nem produtor. Ele se sensibilizou com tanta verdade e me ajudou a montar todo o som. A equipe ajudou a fazer os equipamentos funcionarem. Um dos integrantes da banda ficou preso no trânsito de uma das pontes de Recife e chegou quando a gente já estava no palco, eu dizendo a primeira poesia.

Como foi com o público?
Foi um momento de celebração. Até hoje temos isso com o público de Recife. A gente desceu do palco, voltou para a casinha que tínhamos alugado, e no dia seguinte o Guti ligou para trabalharmos juntos. Depois disso, começamos a pensar o que ganharíamos e o que perderíamos com esse formato de show, com mais música, trocando o contra-regra pelo roadie, ter que aprender a montar os cenários no meio de festivais de música, com poucas possibilidades de pendurar coisas. Resolvemos fazer essas adaptações porque estávamos diante de uma estrada interessante de ser seguida. Todo mundo estava a fim de viver aquilo e trazer os elementos do teatro para o palco de shows.

Até então você nunca tinha cantado?
Nunca. E até hoje acho que não canto. Eu digo poesias. Em alguns momentos grito poesias também. Não acho que sou um cantor.

Como rolou o primeiro CD?
Nosso primeiro álbum saiu em 2001, mas em 2000 a TRIP lançou um CD com 10 músicas nossas que foi o maior sucesso. Até hoje a gente anda e aparece alguém que conhece a banda por conta disso. Foi nosso maior impulso em relação a uma divulgação nacional. Quando começamos a fazer shows, muitas pessoas já sabiam cantar as músicas devido a esse CD.

Qual dos dois discos você gosta mais?
Do segundo, porque ele é uma tentativa de realização de um som autoral que traz a nossa história e a nossa vida. Esse é o som do Palhaço do Circo Sem Futuro – a tempestade, o conflito, a aflição, um som extremamente impaciente, um trovão. Agressivo e profundamente revelador de sensações pelas quais estávamos passando naquele momento. Por causa da forte presença da percussão no palco, muita gente tem a imagem de que o Cordel é tradicionalista e que faz sons exóticos e arcaicos, isso é um grande engano. Engano fruto de cinco séculos de doutrinamento do que seria uma música antenada ou ligada ao futuro. Não acredito que a vida, assim como a música, seja um corredor em que se anda para a frente e para trás. Não acho que uma música olhe para o passado ou para o futuro, acho que ela olha para todos os lados. Tudo isso percebo com mais clareza no segundo disco, porque o primeiro foi um disco meio bandeira, um disco de chegada, explicando de onde viemos e a que viemos. No primeiro disco tivemos muita preocupação em deixar clara a diferença entre o nosso som e o movimento mangue beat que o pessoal de Recife estava fazendo. A gente queria se diferenciar, não por não curtir, mas sim para sobreviver e não ser mais uma banda tentando aparecer ali. A busca por um som que saísse única e exclusivamente da nossa cabeça sempre existiu, e no primeiro disco a gente tem muita coisa ligada a isso, mas também a muitos ritmos já existentes.

O primeiro show de vocês foi em 99, o primeiro álbum foi em 2001 e hoje vocês são nacionalmente reconhecidos. Como aconteceu isso?
Não acredito que tenha sido rápido e nem que sejamos reconhecidos em todos os cantos do Brasil. Estamos buscando uma comunicação maior com o interior do país, onde a gente tem a maior dificuldade de entrar e de fazer shows.

Mas como foi o pulo de Recife para o mundo?
Em Recife a gente praticamente não morou. Fomos de Arcoverde para lá em fevereiro de 1999 e em setembro já viemos para São Paulo. Fizemos um show no velódromo da USP em que tinham 10 pessoas, um frio danado, ninguém no gramado. Fizemos uma temporada no Blen Blen [casa de shows] que começou com 40 pessoas, e foi aumentando. Nos últimos shows tinha umas 300 pessoas.

Por que São Paulo?
Vários grupos que admirava tinham feito essa retirada, como os do movimento mangue beat, que eram o que a gente tinha por referência de técnica, de luz, de espetáculo naquele momento. Não éramos amigos, mas ficamos por conta da convivência.

Quando vocês foram para Recife, o Chico já tinha morrido?
Sim, nunca vi o Chico tocar. Para o meu trabalho no palco, acho que tem uma grande relevância esse fato, porque dizem que ele era tão genial, tão grandioso, que se tivesse visto estaria imitando ele agora. Com as poucas coisas que vi em televisão, entrevistas, fitas de vídeo, revista, realmente entendo o Chico como um artista, um palhaço, um clown maravilhoso, um poeta muito poderoso. Claro que serviu como abertura de possibilidades para a gente poder lançar a poesia da gente. Ao mesmo tempo fico triste porque não vi.

Mas vocês já tinham ouvido o Chico e já sabiam quem ele era?
Claro. A gente tinha os discos deles e já tínhamos visto um show do mundo livre s/a lá em Arcoverde – que foi uma coisa estrondosa, porque nunca a gente tinha recebido uma apresentação como aquela, nem parecida. Quando terminou o show saímos, eu, o Otto – ele era do mundo livre s/a ainda – e o Bactéria, e fomos beber na praça da cidade, na farra da noite. Passamos por um cara que estava tocando pandeiro e Otto pediu o pandeiro e saiu tocando “Ciranda de Maluco”. Ele participou de um pedaço do que viria a ser o Cordel.

Hoje você e o pessoal da Nação são muito amigos?
Cada um tem uma amizade maior com alguém. Eles são muito amigos entre eles, mas nós, do Cordel, viemos em outra época e de outra vivência. A gente não viveu o momento do nascimento do movimento do mangue beat em Recife, pois estávamos em Arcoverde. Recebíamos esse som, mas não conseguíamos enviar o nosso. Existia uma espécie de muro invisível que não permitia. Mas a gente sabia o que estava acontecendo. Cada um tem suas amizades. Sou muito ligado a alguns dos meninos do mundo livre s/a e do Nação Zumbi, tudo por questões pessoais, de convivência. Muito dessa amizade foi criada bem recentemente, não são amizades que têm estruturas antigas e raízes bem fincadas.

Quem são seus grandes amigos?
Meus amigos estão em Arcoverde, alguns em São Paulo, outros em Recife. Existe um monte de pessoas com quem criei uma grande relação de amizade, amizade da forma que concebo, com a sua segurança de que, acontecendo o que aconteça, aquela pessoa vai estar ali e vai tentar te compreender e ajudar, construir algo com você.

Foi difícil se adaptar a São Paulo?
É muito difícil se adaptar, porque a cidade passa uma sensação de não-conforto, é um lugar extremamente ligado a uma punição de não se revelar. São Paulo é um lugar para onde um monte de conterrâneos já tinham vindo para buscar um sonho, uma possibilidade de ampliação de horizonte, uma evolução na vida pessoal. Então só podia ser um mito para mim. A adaptação ocorreu como acho que toda adaptação ocorre aqui, na violência desse contato tão rude e tão diferente da paisagem que tinha vivido e na qual tinha me criado. São Paulo tem um monte de gente que veio se juntar no mesmo lugar para a realização de seus sonhos, e esse lugar fere – a cidade é feita pelo sonho dessas pessoas. São Paulo tem essa característica, de muita gente buscando. Comecei a ter uma relação de amor com São Paulo quando comecei a entender que, na verdade, esse lugar é vítima dessa procura, dessa busca, e que na verdade é uma grande mãe que tem um colo desconfortável, é muito magra, uma mãe de colo ossudo. Essa mãe, quando vai ninar seus filhos, tem um cantar desafinado de tanto ninar as pessoas. Mesmo em condições subumanas essa cidade agüenta. Recife, por exemplo, não agüentaria, nem o Rio de Janeiro. Eu tenho um filho nascido em São Paulo.