O ESPETÁCULO
Como a poesia entrou na sua vida?
Meus tios faziam reuniões de poetas, as chamadas cantorias.
Eles eram conhecidos nesse meio como apologistas, pessoas que
reúnem cantadores e que admiram suas poesias, que é
aquela de improviso, rimada e metrificada. Participava muito desses
encontros e conhecia muitos recitadores. Acho que isso me levou
a abrir livros e começar a decorar as poesias. Às
vezes, decorava de tanto escutar. E comecei a recitar e a me apresentar.
Como era muito novo, impressionava pela memória e oratória.
Os cantadores começaram a me levar a festivais e passei
a ser convidado a participar dos encontros dos cantadores. Passei
boa parte da adolescência viajando e recitando.
Como eram essas viagens?
A primeira vez que viajei foi aos 12 anos. Me apresentei no Teatro
Guararapes, de Recife. Foi minha estréia com o microfone.
Foi para 2.400 pessoas, o teatro lotado. O máximo para
quem tinha me apresentado era a sala da casa de alguém.
Coloquei todos os pensamentos que tinha nessa noite na poesia
mesmo, no poeta. Sabia que ia ser um instrumento daquilo que o
poeta tinha feito. Mas me segurei em uma poesia de Patativa do
Assaré, “Espinho e Fulô”, e na poesia
de um tio meu, Fernando Lira, e aí abri a boca como se
fosse a poesia a falar, mas na verdade já estava sentindo
uma relação com o palco de muito cumplicidade e
até de guerra, mas no sentido de comunicação
boa. A partir daí fiquei à vontade para dizer poesias
em cima do palco.
O que a sua família achava de tudo isso?
Meu pai trabalhava na Secretaria da Fazenda, era fiscal concursado.
Hoje ele está aposentado. Sempre me deu o maior apoio.
Não me lembro de nenhum momento em que meu pai não
tenha me dado o maior apoio. Pelo contrário, só
me lembro dele me desejando coisas boas. Morei com eles até
os 22 anos, em um casarão construído pelos meus
pais, no centro da cidade. Tinha vários quartos e um oratório
de uma santa bem grandona, porque eles são muito católicos.
Com que idade você foi estudar teatro?
Comecei a fazer teatro porque estava ficando maior e sempre batia
um sentimento de que me sustentaria pelo conteúdo que tinha,
e não pela idade. Não era mais uma criancinha e
já não era mais tão convidado para esses
encontros, afinal a voz já estava ficando grave.