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A voz da minha mãe tem uma melodia, fico
escutando essas histórias. Ouço também as fitas
da época em que eu era, bem pequenininho, locutor de uma
rádio que fazíamos em fita cassete. Minha mãe
cantava e eu e meu pai falávamos as histórias, tudo
com gravadorzinho. No Cordel, inclusive, quando a gente começou
a fazer as primeiras apresentações, a gente soltava
uns sons de familiares da gente em fita cassete. Em Berlim conhecemos
o sampler e começamos a soltar várias vinhetas que
tínhamos gravado, como a participação do Nana
Vasconcelos, sons de vento e chuva, um som da minha filha gargalhando.
A gente colocou isso no sampler e as pessoas ficavam falando “ah,
mas agora o Cordel está fazendo música eletrônica”,
quando na verdade era apenas uma modificação da mídia,
mas continuávamos a fazer os mesmos ruídos do passado.
Que doença era essa que você
teve? Você quase morreu mesmo?
Dizem que sim, que todo mundo desenganou. Era uma doença
ligada à alimentação, uma espécie de
intoxicação por causa do leite, mas não sei
bem o que foi. Acredito que começou com uma besteira, aí
me entupiram de remédio e fiquei intoxicado de remédio.
A solução de um dos médicos de Recife foi parar
com todos os medicamentos. Fui melhorando e estou aqui, firme e
forte. Sei lá, acho que essa turma que se recupera assim
dessas coisas fica com vontade de experimentar o outro lado com
voracidade, que é a vida.
E seu pai?
José Paes de Lira, que deu o nome para mim, foi a pessoa
com quem mais convivi na minha infância, até mais que
a minha mãe. Eles se conheceram em Floresta do Navio, minha
mãe ensinando e ele indo trabalhar lá, onde se casaram.
Floresta fica mais ou menos uns 180 km para dentro do sertão,
uma região à beira do rio Pajeú. Eles moraram
em Caruaru e depois Arcoverde. Tenho um irmão e uma irmã
mais velhos e uma irmã mais nova. Só eu virei
artista.
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