A Trajetória da Terra

Fale um pouco sobre a sua família, de onde você veio...
Nasci e me criei em Arcoverde. Meu pai é de Alagoinha, uma cidade vizinha, e minha mãe é de Floresta do Navio, zona rural. Ela nasceu num sítio, saiu de lá como professora, aos 18 anos, e foi morar na cidade. Me considero urbano, uma pessoa que recebeu todas as influências da cidade. Mas a zona rural ainda hoje na minha cidade interfere em tudo, porque é dessa forma que a cidade se relaciona com o que está acontecendo no mato. Na época da seca o dinheiro começa a não rolar e é difícil a cidade ser feliz. Quando chove acontece outro fenômeno, que é o ressurgir de uma esperança. Por isso digo que a zona rural interfere na cidade. Mas me sinto urbano.

Sua mãe nasceu na zona rural. Provavelmente o destino dela seria ficar por ali, casar e ter filhos. Mas ela saiu. Foi corajosa, não?
Ela não ficou quieta. Acho que isso é uma característica daquela pessoa que deseja uma transposição, uma quebra de limites para os seus sonhos. Pessoas como minha mãe têm uma maior preocupação em seguir seus desejos. Percebo que essa garra da minha mãe reflete muito em mim. Ela sempre trabalhou, sempre foi fundo no sonho de ser professora, ensinou e viveu sob o impulso da comunicação. Tenho muito disso. Ela recitava poesias. Existem umas gravações que tenho dela recitando poesia e várias vezes me pego tentando imitar a voz que ela fazia.

De quando são essas gravações?
Eu tenho muitas gravações da minha família; para mim funciona como música, são as músicas que mais ouço. Uma das que mais gosto é a fita em que eles contam a história de quando fiquei muito doente e ninguém sabia explicar o que é que eu tinha. Quase morri. Tinha dois anos e não me lembro de nada, mas gravei meus pais me contando. Era médico dizendo que não tinha jeito, rezadeiras dizendo que tinha. Isso é muito mágico, parece uma música.

A voz da minha mãe tem uma melodia, fico escutando essas histórias. Ouço também as fitas da época em que eu era, bem pequenininho, locutor de uma rádio que fazíamos em fita cassete. Minha mãe cantava e eu e meu pai falávamos as histórias, tudo com gravadorzinho. No Cordel, inclusive, quando a gente começou a fazer as primeiras apresentações, a gente soltava uns sons de familiares da gente em fita cassete. Em Berlim conhecemos o sampler e começamos a soltar várias vinhetas que tínhamos gravado, como a participação do Nana Vasconcelos, sons de vento e chuva, um som da minha filha gargalhando. A gente colocou isso no sampler e as pessoas ficavam falando “ah, mas agora o Cordel está fazendo música eletrônica”, quando na verdade era apenas uma modificação da mídia, mas continuávamos a fazer os mesmos ruídos do passado.

Que doença era essa que você teve? Você quase morreu mesmo?
Dizem que sim, que todo mundo desenganou. Era uma doença ligada à alimentação, uma espécie de intoxicação por causa do leite, mas não sei bem o que foi. Acredito que começou com uma besteira, aí me entupiram de remédio e fiquei intoxicado de remédio. A solução de um dos médicos de Recife foi parar com todos os medicamentos. Fui melhorando e estou aqui, firme e forte. Sei lá, acho que essa turma que se recupera assim dessas coisas fica com vontade de experimentar o outro lado com voracidade, que é a vida.

E seu pai?
José Paes de Lira, que deu o nome para mim, foi a pessoa com quem mais convivi na minha infância, até mais que a minha mãe. Eles se conheceram em Floresta do Navio, minha mãe ensinando e ele indo trabalhar lá, onde se casaram. Floresta fica mais ou menos uns 180 km para dentro do sertão, uma região à beira do rio Pajeú. Eles moraram em Caruaru e depois Arcoverde. Tenho um irmão e uma irmã mais velhos e uma irmã mais nova. Só eu virei artista.