Tpm. Quais outros filmes você fez nos EUA?
Katia. Fiz assistência de direção para o filme Ruby Cairo, do [diretor] Graeme Clifford. Fiz também o O Óleo de Lorenzo, do [diretor] George Miller. Percebi que lá as pessoas fazem filme para ganhar dinheiro. Aqui, fazem filme porque são malucas, gostam do que fazem.

Tpm. Hollywood é muito machista?
Katia. Muito.Tanto é que não existem diretoras lá. No Brasil a mulher tem muito mais oportunidades. Quando vieram filmar Anaconda, em 94, o produtor me escolheu para ser a assistente de produção e o diretor [o americano Luis Llosa] não aceitou porque eu era mulher. O produtor me ligou pedindo desculpas e falou que teria de procurar um homem. Como o rio secou, eles tiveram que voltar um ano depois e o produtor insistiu em me chamar de novo. Dessa vez eu fui. Depois de três semanas, estava comandando a equipe. Usei vestido e trancinha no set todos os dias. Apavorei mesmo e foi o máximo.

Tpm. De quais outras produções internacionais você participou?
Katia. Fiz assistência de direção para [o diretor inglês] Anthony Minghella em O Paciente Inglês e depois trabalhei como assistente de direção para a [produtora] Jodaf em Barcelona, em 1992. Fazia comerciais para televisão. Voltei ao Brasil para fazer Tieta, em 95, que foi um dos primeiros longas nacionais pós-Plano Collor. Aí fiz um atrás do outro: Central do Brasil, Anaconda, Gêmeas, Eu, Tu, Eles e O Xangô de Baker Street.

Tpm. Algumas pessoas me disseram que você é um general no set. Verdade?
Katia. Quando estou no set, fico extremamente concentrada. Você tem que saber o que está acontecendo em todos os departamentos e controlar todos os detalhes. Não brinco no trabalho e, às vezes, acho que levo a sério demais. Adoraria mudar isso, mas é difícil. Entro numa adrenalina e não saio até acabar de filmar.

Tpm. Dizem que você se entrega ao trabalho de corpo e alma. Quando acaba um filme, você não fica meio sem rumo?
Katia. Quando acabou Cidade de Deus, fiquei com um imenso vazio. Me jogo de cabeça, corpo e alma no trabalho. Estava totalmente envolvida com o filme e, de um dia para o outro, acabou. Não ia mais acordar para ir ao set conversar com milhões de pessoas. Parecia que tinha morrido alguém. Esse filme era aonde eu queria chegar e, de repente, acabou. Fiquei deprimida. Estava na maior adrenalina e me bateu uma solidão absurda. Senti que tinha feito um bebê e que ele não estava mais na minha barriga. Foi como uma depressão pós-parto.

Tpm. Como você lidou com isso?
Katia. Percebi que minha vida não podia girar só em torno do trabalho. Estava numa puta adrenalina e, de repente, não tinha mais nada para fazer quando acordava de manhã. Pensei: "Estou com 35 anos, sou mulher e ainda não tive filhos. O que faço agora?". Sabe qual é a sensação? Que eu decolei, estou há 12 anos voando, e não sei pousar o avião. Bateu um desespero. Percebi que precisava cuidar da minha vida e fazer projetos a longo prazo.

Família reunida em frente ao Copacabana Palace
Tpm. Alguma vez você teve medo de a idade passar e não poder engravidar?
Katia. Tenho esse medo, mas não posso ter um filho de repente. Primeiro estou tentando separar o trabalho da minha vida pessoal. Fico num puta dilema porque morro de vontade de ter aquele barrigão, de gerar um filho. Mas também tenho vontade de adotar. Tem tanta criança na rua, eu vou ficar tendo filho? Talvez adote um e tenha outro. Acho que quando for mais velha vou ser uma pessoa triste se não tiver filhos. Quero cuidar de filho, ter uma família. Mas para isso tenho que ter dinheiro.

Tpm. Você não tem?
Katia. Tenho o suficiente para pagar um aluguel e comer. Não tenho nem conta em banco, muito menos aposentadoria. Parece que minha vida não existe. O que existe são meus filmes. Não ganhei dinheiro porque até agora só estava preocupada em justificar a minha existência. Até bem pouco eu só pensava: "Não vim para esse mundo para consumir, acordar, dormir, cagar. Tenho que contribuir de alguma forma para ajudar a diminuir as coisas ruins desse país". Acho que já fiz um pouco disso.