 |
|
|
 |
 |
| |
 |
 |
|
 |
 |
| O ator Luiz Otávio,
da ONG Nós do Morro, que interpreta
o Buscapé criança, protagonista
de Cidade de Deus |
|
 |
|
Tpm. Cidade de Deus parece ser um retrato fiel
do que rola no morro e fiquei muito impressionada com
o elenco de não-atores. Eles são a alma
do filme, como foram selecionados?
Katia. Eu e o Fernando [Meirelles] criamos a ONG
Nós do Cinema. Selecionamos crianças para
fazer um curso e, depois, participar do filme. Sempre
quis fazer uma escola de cinema para crianças carentes.
O [ator] Gute Fraga me ajudou muito. Há
15 anos ele criou uma escola de teatro no morro do Vidgal,
a Nós do Morro. Como ele já tinha experiência
em lidar com a psicologia dessa molecada, pedi para que
começasse com as aulas. Fizemos questão
de colocar a ONG em um território neutro, a Lapa,
onde a molecada pode esquecer suas facções
e as brigas entre seus comandos.
Tpm. Você sentiu medo nos dias que passou lá?
Katia. Tive medo uma única vez, da polícia.
Havia dado um martelo para um dos meninos levar a uma
casa na parte baixa do morro. Ele desceu correndo e, quando
virou a esquina, deu de cara com cinco policiais armados
com metralhadoras. Eles jogaram o menino contra a parede
e começaram a apavorar, perguntando o que ele ia
fazer com aquele martelo. Nunca tinha visto um policial
se comportar daquela maneira. Eles não agem assim
em bairro de bacana. Comecei a me perguntar: quem sou
eu dentro dessa estrutura toda? Pago aquele policial para
ele subir no morro e tratar o moleque daquela maneira.
Tpm. Deu um nó na sua cabeça?
Katia. Deu. Aos 30 anos, percebi que lia jornal todo dia,
tinha estudado nas melhores escolas do mundo, devorado
dezenas de livros e que era a pessoa mais otária
do mundo. Não sabia nada a respeito do meu país,
da minha sociedade. Nossa cultura é mentirosa.
No morro, ser traficante é uma das poucas opções
que as pessoas têm. Isso fica bem claro em Cidade
de Deus, que é uma história verídica.
A polícia age de uma maneira aqui com a gente e
de outra lá com eles. E a imprensa também.
Ela foi responsável por transformar o Marcinho
VP no inimigo nº 1 do Rio de Janeiro.
Tpm. Por quê?
Katia. Por causa de uma entrevista que ele deu na véspera
das filmagens. Os jornalistas estavam enlouquecidos querendo
entrar no morro. Alugaram até casas para dormir
por lá no dia da filmagem. As notícias que
os jornais davam na época eram mentirosas, tipo:
"Bandido exige dinheiro de Jackson". Mentira.
Ele não ficou com um tostão.
Tpm. Como foi essa entrevista?
Katia. Na véspera da filmagem os jornalistas acharam
o Marcio e ele resolveu dar uma entrevista desde que não
fosse divulgada a fonte. Tinha um repórter do O
Dia, outro do Jornal do Brasil e mais um do
O Globo. Um queria dar um furo maior que o outro.
Um deles perguntou se o Marcio usava drogas e ele respondeu
que o único vício dele era mato, maconha.
Qual foi a manchete do outro dia? "Meu único
vício é matar", com a foto dele estampada
nos três jornais. No dia seguinte decretaram ordem
de prisão ao Marcio.
Tpm. Como você se sentiu ao ver os jornais?
Katia. Fiquei chateada, me senti um pouco responsável.
Se a gente não tivesse filmado o clipe no morro,
ele não teria sido preso [Marcio foi preso uma
semana depois das filmagens do videoclipe]. Seu único
flagrante foi um baseado. Nessa época estava começando
a trabalhar com o Waltinho [Salles] em Central
do Brasil. Conversamos e ele me perguntou se eu não
queria fazer um documentário sobre isso. Foi aí
que surgiu a idéia de fazer Notícias de
uma Guerra Particular [documentário que enfoca
as relações entre a polícia, o tráfico
e as comunidades dos morros]. Fui visitar o Marcio
na Polinter e perguntei se ele nos ajudaria no documentário.
Ele topou, porque queria mostrar às pessoas o lado
de quem nasce nessa realidade.
Tpm. Ele deu um depoimento para o documentário?
Katia. No meio das filmagens de Central do Brasil ele
fugiu da prisão e, nesse meio-tempo, o João
Salles, irmão do Waltinho, se empolgou com o assunto
e resolveu fazer o documentário comigo. O Marcio,
mesmo foragido, deu um depoimento para o filme e insistiu
em fazê-lo sem máscara. Acabamos tirando
essa parte porque percebemos que seríamos responsáveis
pela sua morte. Ele ficou puto quando contamos que tínhamos
tirado sua fala. Depois que o documentário ficou
pronto, eu e o João não quisemos abandonar
o contato com o Marcio, que é um grande cara. Até
hoje falo com ele.
Tpm. Você sofreu perseguições por
conta dessa amizade com o Marcio?
Katia. O Marcio estava foragido quando a história
do livro do João Salles veio à tona na imprensa
[em fevereiro de 2000 os nomes de VP e João
Salles foram manchetes de vários jornais, quando
o documentarista contou à imprensa que vinha pagando
ao traficante, que estava foragido, uma mesada de R$ 1
200 em troca do abandono do crime e de capítulos
de uma autobiografia. Salles só tornou o fato público
porque descobriu que seus telefones estavam grampeados
e temeu ser chantageado]. Para a polícia, era
uma questão de honra prender o cara. Eu estava
sendo seguida, meu namorado estava sendo seguido, minha
secretária estava sendo seguida. Um policial chegou
a abordar meu namorado e a insinuar que, se eu não
contasse o paradeiro do Marcio, algo me aconteceria. Passei
mal, não conseguia dormir. Quando descobri que
ele estava preso, fiquei aliviada por ele ainda estar
vivo.
Tpm.
Dizem que você teve um romance com o Marcinho...
Katia. O Marcio é um grande amigo. Toda a educação
que não tive na melhor faculdade dos Estados Unidos,
que custou uma fortuna para os meus pais, eu tive com
o Marcio. Ele abriu minha cabeça, me ensinou coisas
importantes. Tenho uma relação de amizade
com o Marcio que vai durar para sempre. Deve ser muito
ingrato namorar bandido. As mulheres que namoram bandidos
sofrem muito.
Tpm. O fato de ele ser ou ter sido um bandido nunca pesou
nessa amizade?
Katia. Nossa amizade não tem nada a ver com esse
lance de tráfico. A gente não fala sobre
isso. Falamos da vida, do mundo, de livros. Todo o meu
trabalho tem um pouco dele. É uma pena ele ter
optado pelo caminho do tráfico. |
|
 |
|
 |
|