Tpm. Vários filmes que retratam a periferia vêm sendo produzidos no Brasil, como O Invasor, do Beto Brant, e Carandiru, do Hector Babenco, além de Cidade de Deus. Por que o interesse nesse universo?
Katia. O interesse dos cineastas na periferia demonstra o subjetivo coletivo. A violência é o maior problema que a minha geração enfrenta, a situação está cada vez mais insustentável. No começo, os cineastas pensavam: "Por que eu tenho de ver isso? Essa realidade violenta não é a minha". De uns tempos para cá eles começaram a ver que essa é a realidade de todo brasileiro. Eles acordaram e estão querendo acordar os outros com seus filmes, estão vendo que não dá para fingir que nada está acontecendo.

Tpm. Alguns desses cineastas são da classe alta ou média alta...
Katia. A violência também faz parte da vida do rico, da vida de quem vai ao cinema. Tanto o João [Moreira Salles] quanto o Fernando estão tentando entender essa realidade. Eles não escolheram nascer ricos. São pessoas maravilhosas, abertas, que estão procurando ver o lado de quem não nasceu em família rica.

Tpm. O que você acha da elite brasileira?
Katia. A elite brasileira é burra. Quer tudo para ela e nada para os outros. São pessoas que vão passar a vida toda trancadas em seus condomínios reclamando da violência até morrer.

Com sua afilhada no morro Santa Marta, onde adora passar os fins de semana
Tpm. Qual é a sua relação com o morro? Você tem amigos e até afilhados por lá, não é?
Katia. Passo dias no morro, durmo e como por lá muitas vezes. Tem uma família que visito sempre e até uma afilhada. Adoro ir ao morro Santa Marta. É uma contradição ver a vida deles e a da minha família, por exemplo.

Tpm. Você acha que é possível combater a violência gerada pelo tráfico?
Katia. A solução é incluir os meninos do morro na sociedade, misturar a elite com os menos favorecidos. Todas as escolas precisavam ter a mesma qualidade e isso deveria ser assegurado por lei. Os garotos que estão no tráfico não gostam de ser maltratados o tempo todo. Se tivessem melhores oportunidades, não estariam lá.

Tpm. E o próprio narcotráfico, como se resolve?
Katia. O narcotráfico não é o problema. Se acabar agora, vai ser pior. Eles vão descer o morro com todo aquele arsenal de armas para conseguir dinheiro. Vão sair assaltando todo o mundo. A solução é dar outras oportunidades a essas pessoas. Afinal, se um adolescente tem energia para subir e descer o morro com aquela arma pesada nas mãos, imagina a energia que não tem para trabalhar sem correr risco.

Tpm. Você é a favor da legalização das drogas?
Katia. Sou. Até hoje não conheço ninguém que deixou de usar drogas porque é proibido. A proibição só leva mais dinheiro aos criminosos.

Tpm. Você usa alguma droga?
Katia. Não uso e não condeno quem usa, mas acho que quem cheira cocaína e fuma baseado está colaborando com o aumento do tráfico. Talvez uma criança tenha morrido para que um baseado chegasse nas mãos de quem vai fumar. Complicado isso...