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"Estudei em uma das melhores faculdades dos Estados
Unidos, mas aprendi muito mais nas favelas cariocas."
A comparação da paulistana Katia Lund, 36
anos, vale como uma declaração de princípios.
Filha de americanos de classe média alta, foi criada
na capital paulista em um ambiente que descreve como "uma
bolha" - aulas em escola americana e apenas amigos
estrangeiros. A menina ruiva de olhos azuis só
descobriria o Brasil anos depois, no alto da favela do
Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, onde subiu pela
primeira vez para produzir um clipe de Michael Jackson.
Para chegar lá, Katia praticamente deu uma volta
ao mundo. Deixou a formação rigorosa praticada
pelos pais para trás e mudou-se para os EUA, onde
cursou faculdade de Literatura Comparada, na Brown University.
Com 20 anos e a impressão de que continuava tão
isolada da realidade quanto sempre estivera, decide estourar
de vez a bolha. Com 2 000 dólares no bolso e uma
mala pequena, viaja por China, Inglaterra, Itália,
Índia, Japão, Tailândia, estudando
cinema. "Estava interessada em conhecer outras culturas",
diz. Acabou descobrindo, de quebra, sua vocação.
De volta ao país, procurou uma chance de colocar
em prática o que havia aprendido. A oportunidade
apareceu em 1989, quando conseguiu uma vaga de pesquisadora
na equipe de Hector Babenco, que se preparava para filmar
Brincando nos Campos do Senhor. Deu tão
certo que recebeu um convite para trabalhar em produções
norte-americanas, algumas delas premiadíssimas
como O Paciente Inglês, de Anthony Minghella,
em que Katia fez assistência de direção.
Não se impressionou com Hollywood: "Lá
as pessoas fazem filmes para ganhar dinheiro, aqui fazem
porque gostam". Ela está no grupo dos que
gostam e, mais uma vez, voltou ao Brasil.
Guerra
particular
Trabalhou em Tieta, Central do Brasil e
Gêmeas, entre outros. Descobriu que tipo
de história mais gostava de contar com Notícias
de uma Guerra Particular, brilhante documentário
de 1998 em parceria com João Moreira Salles, revelando
a assustadora relação entre polícia,
traficantes e comunidades dos morros cariocas. Durante
a produção, conheceu melhor o então
chefe do tráfico do Morro Santa Marta, Marcinho
VP, que dois anos antes havia dado permissão para
que sua equipe subisse o morro para gravar o clipe de
Jackson.
Continuou com os olhos na periferia assinando clipes premiados,
como "Traficando Informação",
do rapper MV Bill, e "A Minha Alma", do grupo
O Rappa. Aquecimento perfeito para Cidade de Deus,
longa-metragem baseado no romance homônimo de Paulo
Lins e dirigido por Katia em parceria com o publicitário
Fernando Meirelles. O filme, aplaudido de pé após
exibição no último Festival de Cannes,
é uma das mais impressionantes narrativas sobre
o impacto do tráfico de drogas na vida de uma comunidade
- no caso, o bairro que dá nome à fita.
Em uma de suas raras entrevistas, concedida com exclusividade
à Tpm, Katia Lund revela os bastidores
das filmagens, fala sem pudor de sua amizade com Marcinho
VP, defende a legalização das drogas, descreve
a emoção de subir uma favela pela primeira
vez e conta como comandar um set de filmagem mesmo usando
um vestido e trancinhas no cabelo. |
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